As Pinturas e o
Imaginário Popular Brasileiro

Povoado de Abelhas, distrito de Inhobim, Vitória da Conquista, Bahia. Foto: Thomaz Duarte

24.03.2026

CLARA IZABELA

Itapebi é uma cidade na Bahia, atravessada pela BR 101, onde há uma hidrelétrica sobre o rio Jequitinhonha. Era tarde de um verão de janeiro de 2018 e, após o almoço, as ruas estavam vazias, com poucos ou nenhum morador. Em meio a essa paisagem que parecia congelada no tempo, com casarões característicos do sertão baiano, de fachadas coladas nas calçadas e platibandas, achei que estava em uma cidade fantasma. 
"O Come Calado" - Itapebi, Bahia. Foto: Clara Izabela
"Bar no Remanso do Fulor"- Itapebi, Bahia. Foto: Clara Izabela
Havia uma pintura gasta sobre a fachada de um casarão em ruínas, onde se lia “O Come Calado”. Também tinha um bar em que se lia, pintado à mão na fachada: Remanso do Fulor. Era 2018 e, na época, sem saber bem porquê ou ter uma finalidade específica, eu já tirava fotos de fachadas com pinturas à mão. Os motivos não eram muito objetivos para mim. Em Itapebi, gostei da poeticidade dos nomes do Come Calado ou do Bar Remanso do Fulor, mas não só. Às vezes, algumas coisas que cruzam o nosso caminho nos chamam a atenção, e você nem mesmo sabe por quê.

O Nordeste brasileiro é uma das regiões que mais tem pinturas em fachadas. Ali em Itapebi, ou logo que saí dela, iniciei o projeto Hand Painted Brazil. Pela primeira vez, desde que comecei a tirar fotografias de pinturas, comecei a desviar do meu caminho, ou a parar o carro para fotografar alguma intervenção gráfica de que tinha gostado.

O projeto começou com minhas fotografias no Instagram, mas, como uma sociedade secreta, rapidamente apareceram outras pessoas que também gostavam desse tipo de arte. Eu não entendia nada sobre pintura popular ou pintura vernacular brasileira. A partir do projeto, conheci outros projetos semelhantes na América Latina, como o @lamorelupita, de pinturas da Madre Lupita, e o @graficapopularmexicana, ambos do México; o @identicacr, de memória gráfica da Costa Rica; o @elflowtropical, de documentação de pintura popular dominicana; a @loque_es, de pintura popular em El Salvador; o @letracalle, arquivo gráfico da Guatemala; e o @handpaintedcolombia, de registros fotográficos colombianos. No Brasil, temos o @letrasqflutuam, de pesquisa, mapeamento e divulgação dos abridores de letras de embarcações da Amazônia; o @pinturadecaminhao, que pesquisa filetes e pinturas em carrocerias de caminhões brasileiros; e o @pintoresdeletras, de pesquisa de pintores e pinturas em Santa Catarina. Além das instituições, há também uma infinidade de viajantes, professores, letristas, pesquisadores, fotógrafos e artistas que se interessam pela temática. 
Dei-me conta de duas coisas: havia um certo deboche, principalmente de seguidores do Sudeste brasileiro, com as pinturas que recebem comentários sobre serem "toscas", "mal pintadas" ou “improvisadas”. Também percebi que muitas das pinturas são apagadas. As fachadas são trocadas, estabelecimentos comerciais mudam, a penetração de computadores e banners impressos nos pequenos comércios gradualmente substitui as pinturas à mão, e esses dois fatos estão relacionados. Computadores e a padronização estética com banners feitos digitalmente andam de mãos dadas com a ideia de progresso e modernização e, logo, com a substituição de antigos padrões por algo novo. 
"Bar do Caçaco" - Exu, Pernambuco. Foto: Tâmara Lacerda Fidelis
"Sereia" - Alcobaça, Bahia. Foto: Paulo Henrique Tarlé
Em contrapartida, muitos seguidores comentavam que adoravam ver suas cidades citadas nos posts, que conheciam a pintura e às vezes até tinham um sentimento nostálgico sobre elas, pois estavam há muito tempo ali, no caminho da escola, na frente da casa da tia, no bar da esquina de casa. As pinturas expressam também, além de sua comunicação óbvia, um pouquinho de onde viemos e, talvez, para onde deveríamos voltar. Essas pinturas estão espalhadas pelo Brasil inteiro. São infinitas as finalidades, temáticas, traços e paletas de cores que existem em todas as esquinas deste país. Elas fazem parte do nosso repertório imagético e são parte do nosso cotidiano; nos reconhecemos nelas. 
"Boi Bandido" - Condado, Pernambuco. Foto: Hugo Muniz
"Salgado" - Barra Bonita, SP. Foto: Dalmo Hernandes
"São Jorge" - Boa Vista, Roraima. Foto: Otacília Carolina Gomes Brito
"Peixaria" - Cumuruxatiba, Bahia. Foto: Gabriela Nassar

As fotografias são registros do observador que está na rua, e são essas que o projeto pesquisa e divulga. O olhar desse observador, espalhado por todas as regiões do país, registra não só a pintura, mas seu entorno: a paisagem. As pinturas, de certa forma, são crônicas imagéticas do nosso cotidiano e revelam um pouco sobre o que somos, o que gostamos, o que consumimos, os nossos hábitos de vida e as subjetividades de cada região.

Em regiões ribeirinhas amazônicas, é comum a figura do boto-cor-de-rosa; em cidades litorâneas, figuras de peixes ou temáticas relacionadas à pesca; em São Paulo, há a influência do graffiti e muitas pinturas feitas com aerógrafo, onde o carro é uma temática comum. Em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, muitas pinturas de onça-pintada, jacarés e cobras. Em todo o país, estão presentes pinturas e releituras de personagens de desenhos animados norte-americanos e da Turma da Mônica.  
"Botos"- Rio Negro, Amazonas. Foto: Vicky Garaventa
"Cebolinha e Cascão Capoeiristas" - Mogi das Cruzes, SP. Foto: Ricardo Braghetto
Pinturas em bares, que geralmente levam o nome ou apelido do dono ou alguma temática com humor, também estão presentes em todas as regiões, assim como pinturas sacras, pintadas principalmente, mas não só, em casas e veículos: Jesus Cristo atrás de caminhões, imagens da umbanda e candomblé, além de santas católicas como Nossa Senhora Aparecida aparecem na entrada de algumas casas. A partir dessas temáticas, é possível encontrar pinturas maravilhosas e muito particulares, lindas mesmo, como uma com temática minimalista de um salgado representado como um meio círculo, ou pinturas oníricas, como uma sereia com cabeça de pássaro. 
"Jesus e Maria no Caminhão" - Guarapari, ES. Foto: Franco Nespoli
"Jesus" - Mazagão Velho, Amapá. Foto: Bruno Araújo
Uma das minhas temáticas de pintura prediletas são os clubes de música, danceterias e casas de dança. Sou fascinada. Talvez porque as pinturas são, em sua maioria, muito originais: apesar de muitas terem pessoas ou outros elementos dançantes, elas inovam na composição e cores e não seguem um padrão, como é comum ver em pinturas de fachadas de bares e adegas, por exemplo. O que mais me fascina é justamente essa temática que apelidei de "dançante": são pessoas, outros objetos ou até mesmo frutas dançando, em movimento. Os traços têm movimento, os rostos são de alegria e confraternização. Gosto de pensar que esses locais são estritamente lugares para dançar: casas de dança, como eu os apelidei. Pequenos templos para se divertir, para ouvir música e bailar, se mexer e, talvez, esquecer um pouco de todas as outras coisas, como o que você almoçou ou alguma dificuldade no trabalho. Eu queria visitar todos esses lugares, conhecer todos esses imensos chãos para dança que existem em todo o Brasil. Vou pedir minha entrada pelo buraco da bilheteria e adentrar esses espaços de convívio, alegrias e esquecimentos. 
"Bar Clube 5 Estrelas" - Cabeceiras do Piauí. Foto: Felipe Soares
"Bar da Paulinha" - Serra, ES. Foto: Bianca Rodrigues
"Meu Xodó" - Canoa Quebrada, Ceará. Foto: Cristiano Câmara
"Cantinho do Forró" - Trairi, Ceará. Foto: Jamille Queiroz
Quando um artista pinta o personagem Hulk segurando um coco verde em uma barraca de coco em Guaratuba, no Paraná, podemos nos reconhecer um pouco. Considero as releituras de personagens maravilhosas por isso. Em meio a um bombardeio e invasão da cultura norte-americana no imaginário do cinema e da televisão, ter um Hulk adaptado ao clima e aos costumes brasileiros é uma apropriação cultural tão subversiva que diz muito mais sobre a gente do que um julgamento, muitas vezes elitista, sobre se o Hulk está pintado corretamente ou não. 
"Hulk" - Guaratuba, Paraná. Foto: Rodrigo Ponce

Citei algumas temáticas aqui porque tudo isso passa pelo trabalho de curadoria e olhar do projeto, que identifico também como não só um projeto sobre pinturas, mas um mapeamento e documentação, por meio das pinturas, da paisagem de um país em transformação e que está cada vez mais escassa. É fato que o trabalho manual, a partir da Revolução Industrial, passou a ser mediado por máquinas, e isso se estende às pinturas: cada vez mais a sinalização de uma fachada comercial, por exemplo, está sendo substituída pelo trabalho e desenho computadorizado.

"Santo" - Bezerros, Pernambuco. Foto: Andre Cast
Ainda temos essas pinturas em abundância; ainda é uma manifestação popular e artística muito presente na paisagem brasileira. Elas fazem parte da produção cultural do país e nos identificamos com elas. Gilberto Gil, no artigo "A importância dos baús abertos na nossa memória afetiva", fala: 
“(...) Este assunto evoca os versos de uma velha canção: ‘Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim / Digo num velho baú de prata porque prata é a luz do luar’. Ela fala de um tempo de retorno ao Brasil e de um tempo de exílio, e da memória afetiva preservada num velho baú de prata. Este baú é como um museu pessoal, o museu que todos temos, feito de lembranças, quinquilharias e reminiscências que alimentam o nosso presente. Como todos os museus pessoais, o da canção tem ‘qualquer coisa’ que vai além do ‘eu’. Há um momento e um território em que o canto da memória se encontra com outras memórias e outros cantos. E se transforma a partir dos encontros feitos. Os museus de pedra e cal e os museus virtuais são baús abertos da memória afetiva da sociedade, da subjetividade coletiva do país, da soma dos museus pessoais. 
Penso no velho baú de prata, penso no matulão, penso num projeto de viagem com mala e cuia, penso nas arcas de alianças e chego aos relicários, aos realejos e seus desejos de reinvenção do real, e também na arte contemporânea, no futebol, na tecnologia. Por este sertão de memórias e suas veredas, chego aos grandes museus das capitais e também aos pequenos museus do interior, e mais ainda aos museus portáteis, tão caros aos homens e mulheres do povo, aos artistas, aos museólogos, aos educadores, aos antropólogos, aos cientistas do microcosmo social, e a todos os que se dedicam ao pensamento e à expressão. Há, como se sabe, museus de diversos tipos, todos igualmente significativos. O importante é que estejam vivos, que pulsem, consagrando o jogo de tradição e invenção que dialeticamente marca a construção da cultura brasileira.” 

E aí, depois de quase oito anos de projeto, volto para a fachada do bar de Itapebi, pesquiso o que significa Fulor e Remanso, me pego pensando o que seria o Come Calado e imagino tantos outros encontros possíveis que estão acontecendo agora em tantas cidades ou beiras de rios no Brasil, tantas outras manifestações artísticas e recortes que se pode ter dentro de um Brasil que tem muitos Brasis dentro, guardados em milhares de memórias afetivas em baús de prata que alimentam nosso presente, como cita Gil.

"Recanto Clube" - Cidade Desconhecida - Ceará. Foto: Tatiane Jovino