O espírito da imagem
e a Iconoclastia do Fantasma

O vento era a minha obsessão e também todas as outras coisas que eram invisíveis, elas permitiam que a minha presença alcançasse a sensação de viver.
Quando conheci o espírito do autorretrato, me lembro apenas da saliva e dos pequenos fios de cabelo pelo corpo, o resto era um tenebroso medo do outro.
Aprendi a fotografar do jeito mais humano possível — odiando o mundo e todas as coisas que pertenciam a ele.
As fotografias infinitas serviam como uma tentativa de repetição da forma até que ela finalmente pudesse se tornar outra, uma tentativa de liberdade, um feitiço que se iniciava e terminava com as nuvens. Como quando repito a palavra corpo até que os ossos se quebrem.
Em cada retrato há uma cicatriz de algo que achei bonito por tanto tempo até que me machucasse o suficiente para se tornar uma imagem — a forma queima e é impossível procurar pela vida no ofício do retrato e não entrar em um transe eterno de dilatação da retina, destruindo a sensação de saber e obsessivamente começar a inventar.


Eu nomeio como machucados todas as imagens que tirei, por tê-las feito com uma lâmina nas mãos, abrindo uma incisão na pele da realidade para que conseguisse tirá-las, como se em cada uma houvesse a fragmentação, fugindo da linguagem perfídia, me tornando um fantasma, que mesmo com os desejos e uma carcaça humana, fosse obrigada a se transfigurar sem perder a possibilidade de existir.
O que eu vejo quando abro o arquivo é um oráculo de um tempo e conhecimento que existe entre o que eu já vivi e o que não sei, é a tentativa sagrada de pisar em algo que ainda é lama até que vire um corpo e consequentemente de contrariar a solidão, pois essa é a relíquia da transfiguração e por isso sou devota dela. A eterna sensação de devorar tudo que é incessantemente centrifugado e disparado em direção aos meus sentidos, me tornando um estado de graça, uma língua bifurcada se alimentando do outro, pois também sou o outro quando aceitei a decomposição como o que sou. A imagem é a acumulação de todas as mentiras que contamos para nós mesmos e ainda assim é impossível mentir diante do que sentimos por ela.
Mentira que também é uma fantasia, a mesma que torna o brilho do sol na água o meu rosto dourado e deformado pelas tentativas de enxergar coisas que não precisam fazer sentido nenhum.

Na frente da câmera há um resíduo de memória e todas as flores da eternidade e da peste, são os corpos andróginos que ainda dançam. Seus rostos não são vistos, não pela falta deles, mas pela multiplicidade que condensam e que é impossível de se enxergar a olho nu. Quando digo fantasma, quando digo fotografia, falo da morte e da vida em um traço equidistante, uma convulsão de todas as coisas que não pude ver por muito tempo e hoje se tornaram minha obra e minha vida, pois tudo nunca deixa de existir e a opacidade significa atravessar qualquer território com a possibilidade de criar relações sem precisar rastejar.
Criar imagens me permitiu um afeto e uma empatia por tudo que não é humano e por assim não ter medo do fim do mundo — mas desejá-lo como uma queda do céu. A guelra do peixe em mim não é uma tentativa de alongar minhas lágrimas, mas a busca pela origem da vida.
Minhas mãos se tornam zonas úmidas quando começo a me pintar na frente do espelho — e olhar para ele, enquanto me atrevo a redescobrir minha feminilidade por meio dessas novas mãos, é enxergar que através do reflexo percebemos que a imagem não é uma entidade separada ou uma mera especulação. A imagem considera tudo — do incendiário antropoceno ao fóssil da descoberta do mundo, como sonhos envolvidos por uma condição planetária.
A desobediência me lembra que o mundo está sendo destruído o tempo todo, mas as criações e os vermelhos que saem de mim me prometem a possibilidade de ouvir as pessoas e o que elas sentem — tornando inegável que a resposta do signo está sobretudo em sentir.




