People change things.

10.12.2021

MANUEL NOGUEIRA

As pessoas criam as histórias pelas quais irão viver. Essas histórias transformam as pessoas. As pessoas transformam essas histórias. Trabalhar com storytelling é, antes de tudo, trabalhar com todos os elementos que o compõem: o formato, a mensagem e a narrativa que a sustenta; os canais e os receptores; o factual e o simbólico. Estamos lidando com uma explosão atômica da internet e enfrentamos um desafio duplo: nos ambientes digitais de hoje, as pessoas não são consumidoras passivas, são co-criadoras, construindo novas comunidades e estimulando novos diálogos em torno de suas paixões. A realidade que concebemos não poderia ser mais dicotomizada: não existe o real e/ou o virtual; existe a nossa vida definitivamente mediada pela tecnologia. Nossas interações digitais se baseiam nos ativos da nossa própria marca pessoal — nossos avatares, nossas fotos, nossas mensagens em áudio e vídeo codificam quem somos. Estamos digitalizados.

"Sempre dizem que o tempo muda as coisas, mas na verdade é você quem tem que mudá-las." – Andy Warhol

É uma nova realidade, onde nosso jogo de papéis digitais nos faz navegar livremente pelas tendências estéticas, misturando, combinando e criando variações pelo caminho. Tudo é hiper-real, com toques de realismo fantástico, nas margens do que é de outro mundo.

"Estou em uma fase em que o real é quase entediante, porque é aquela coisa que já foi reciclada e reciclada. Agora eu quero ver o oposto disso. Quero ver o hiper-real, o fantástico, o absolutamente vanguardista e fora deste mundo." – Charli XCX

Mas, ao mesmo tempo, o oposto disso também é verdadeiro. Desejamos conexão, calor humano e afeto. Precisamos ser, assim como precisamos da possibilidade de nos tornarmos — e isso não é intermediado por mídias ou tecnologias. Precisamos de esperança, empolgação, surpresa, compaixão, confiança. 

Esse contexto foi intensificado pela pandemia, que nos trouxe o desafio de nos reconectarmos uns com os outros. Passamos a atribuir um novo valor às relações, especialmente no que diz respeito a construí-las e mantê-las. Reconectar-se com as pessoas, e com suas ideias. 

Não se trata do número de pessoas nos nossos círculos internos ou externos, mas de um panorama de pessoas selecionadas, conectadas. Isso se torna relevante quando pensamos em comunicação de marcas: como empresas e marcas se aproximam de um grupo de pessoas com interesses e valores em comum, um grupo na sociedade, uma paisagem de amizades — um friendscape. Isso exige consideração e intenção. E também é essencial ao pensarmos sobre a rede que constrói essas mensagens. 

Precisamos pensar na efetividade criativa para esse público, com técnica e empatia para captar as nuances entre diferentes pessoas. Vemos hoje muitas iniciativas tentando se aproximar das pessoas ao exaltar diferenças ou ainda reforçar noções distorcidas de sucesso, produtividade e conquista, gerando frustração constante. Há uma desconexão entre o que as pessoas são, como vivem, o que sentem e a forma como são retratadas. Nem sempre se trata apenas da materialidade ou das lutas da vida — trata-se também de alegria. 

O prazer também é um ato político. Desfrutar a vida de forma plena faz parte da condição de ser humano.

"Estou ficando mais velho, tenho mais responsabilidades / Mas estou melhorando em admitir quando estou errado Sou mais feliz do que nunca, pelo menos esse é meu esforço / Para me manter firme e priorizar meu prazer." – Billie Eilish, Getting Older

O valor de uma ideia entra em discussão. E — adoro essa parte — ter uma ideia é super simples. Primeiro, você precisa saber o que é uma ideia, depois precisa tê-la. Ideias não são um lampejo de mágica. Elas se baseiam na relevância e na estrutura. O valor atual de uma ideia está em sua capacidade de ser moldada em todo tipo de produto cultural possível. Não apenas um filme ou um vídeo, mas também podcasts, jogos e fotos. Isso não é possível de alcançar à distância; precisamos nos aproximar das pessoas. 

Acreditamos que existe uma forma eficaz de comunicar, e a etapa de produção é radicalmente relevante para a efetividade do que comunicamos. O momento final para moldar ideias, para estruturar. A oportunidade decisiva para entender nossas escolhas, como estamos representando as tensões culturais que as pessoas vivem em nossa mensagem, produção, elenco e equipe. Como a ideia pode ser adaptada para diferentes plataformas e produtos. Como cada palavra do texto de um roteiro fará sentido e levará a história adiante. Como uma boa música — batida após batida — a história precisa ser construída de forma natural nas pessoas. Isso é o que temos estudado, é o que temos feito. É no que acreditamos. É o que temos vivido.


People change things.